Case: Falta de incentivo ao reuso de entulho reduz investimento em P&D
A fraca demanda por resíduos da construção civil como insumo na região metropolitana de São Paulo impede o investimento para desenvolver novas tecnologias de processamento e novos usos do material, informou Marcelo Baldini, diretor comercial da Urbem em entrevista à Revista Sustentabilidade.
"É negócio que requer um investimento alto e o fato de não termos concorrentes é um desestímulo ao investimento em pesquisa e desenvolvimento," explicou.
A Urbem é uma das poucas empresas que reciclam e processam o entulho de grandes obras de engenharia e de construção civil para produzir brita e areia reciclada. A empresa utiliza equipamentos de pedreiras para processar o entulho, que, na sua maioria, é de tecnologia nacional.
Ela foi montada há cinco anos por sócios que perceberam o espaço no mercado, já que poucas empresas fazem o processo. No entanto, a empresa ainda é limitada a receber apenas caçambas de entulho de concreto, pois o reuso de material processado de outros entulhos não é aceito pelo mercado.
Entulho de material cerâmico, por exemplo, não é aceito pelo mercado pela sua cor, apesar de ter sido testado satisfatoriamente nas obras estruturais de arruamento do campus Zona Leste da Universidade de São Paulo.
Marcelo explicou que a experiência na USP Zona leste ilustra como a empresa busca novos desenvolvimentos, pois acompanha de perto algumas pesquisas sendo desenvolvidas nas faculdades de engenharia e freqüentemente fornece materiais para experimentos ou testes.
Um dos principais entraves é a falta de políticas públicas que incentivem o uso do entulho processado, o que aumenta muito o risco do investimento nesta nova indústria.
"Desde que começamos em 2004 já vimos pelo menos três empresas fecharem as portas," lembrou Baldini. "Estamos numa situação pouco confortável porque não existem concorrentes."
Para ele, empresas competindo no seu setor poderiam ajudar a baratear o custo do entulho reciclado permitindo maior amplitude na distribuição, hoje limitada a um raio de 20km da usina em São Bernardo por causa dos custos de frete e de trafegar no trânsito caótico da região.
Estes custos acabam inviabilizando pois elevam o preço da brita e da areia produzida muito acima do material extraído diretamente da natureza.
Segundo Baldini, políticas públicas locais como a, até agora estéril, tentativa do município de São Paulo de contratar quatro empresas para coletar e reciclar o entulho, ajudariam, pois possibilitariam não só a entrada de concorrentes mas daria um incentivo para a própria Urbem atingir outras regiões da Metrópole.
"Fomos consultados na hora de elaborar os editais, mas depois nos esqueceram e nos chamaram só depois que ninguém apareceu no leilão," disse.
A prefeitura ainda não tem data para um novo leilão.
Por enquanto, a empresa fica restrita a receber apenas entulho limpo de concreto, a minoria dos 3.500 toneladas produzidas diariamente na cidade, e vender apenas para grandes empresas que podem aproveitar o entulho para reduzir custos, por estarem por perto da usina ou empresas que estão comprometidas a reduzir o impacto ambiental de suas atividades por escolha estratégica ou contratual.
"Sei que vai chegar o dia que em vamos comprar o entulho, pois a sociedade vai perceber que o material da natureza não pode ser mais utilizado", disse.