Produzir mais alimentos com menos água. Estamos no caminho certo?
Para o Conselheiro Chefe para Assuntos Científicos do Reino Unido, John Beddington, o grande desafio da comunidade científica é produzir mais energia e mais alimentos utilizando menos águas e outros recursos naturais, proposta que muitas vezes pode ser alcançada por meio de planejamento e aplicação de técnicas gerenciais.
"A cada mês a população mundial cresce 6 milhões habitantes," disse Beddington em entrevista exclusiva à Revista Sustentabilidade. "As projeções indicam que a demanda por energia e alimentos devem crescer 50% até 2030".
Segundo Beddington, a agricultura é responsável por 70% do consumo de água mundial, enquanto isso a população mundial está se concentrando em centros urbanos, que necessitam buscar água em outros lugares.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO), utiliza-se de 2.000 a 5.000 litros de água para produzir alimento suficiente para uma pessoa durante um dia. Além disso cada ser humano deve consumir em torno de dois a cinco litros de água.
Na produção de alimentos, a agricultura irrigada é a que tem mais produtividade, mas é também a que mais desperdiça. Estimativas apontam para perdas de 50% nos sistemas de irrigação.
Por isso a comunidade científica e as indústrias precisam começar a produzir mais alimentos com menos água, utilizando menos espaço e recursos naturais.
"Para enfrentar adequadamente as mudanças climáticas precisamos produzir mais na mesma área, com uso potencial menor de água e sem derrubar florestas", explicou Beddington.
Mas para ele a solução passa primeiro por uma reorganização do setor produtivo de alimentos e aplicação de técnicas tradicionais de cruzamento seleção artificial, antes de usar alta tecnologia como manipulação genética.
Segundo o especialista em biologia populacional, apenas com técnicas tradicionais e manejo, o centro de pesquisa agrária de Rothamsted na Inglaterra conseguiu aumentar de duas toneladas por hectare para dez toneladas a produção de trigo de uma área experimental, sem alterar os processos. Detalhe, a fazenda de Rotenstead está em produção desde 1850.
"Os investimentos foram feitos na melhora genética com técnicas tradicionais e padrões de plantações, buscando as melhores práticas", disse.
Na opinião de Beddington, há também espaço para a utilização de linhagens, fruto de manipulação genética, que aumentam a resistência a secas, pragas e alto teor de sal no solo.
Mesmo assim mudanças nos padrões agrícolas no mundo estão pressionando o caminho oposto. Enquanto os órgãos de pesquisa nacionais e multilaterais buscam reduzir a utilização de água, a demanda por biocombustíveis, principalmente de cana de açúcar que necessita de 10 mil litros de água para cada tonelada de planta produzida aumenta o uso do recurso.
NOVO FOCO DE PESQUISA
A equação água, agricultura e alimento, no entanto, começa a ser debatida com mais afinco pela comunidade internacional. Nos últimos doze meses, o Brasil e o Reino Unido celebraram o ano da ciência, durante o qual foram firmados vários acordos de cooperação para pesquisa e intercâmbio científico nas áreas de meteorologia, agricultura e biocombustíveis.
O Brasil, um dos líderes mundiais na produção agrícola e também uma das últimas fronteiras agrícolas é forte candidato a ser um dos principais exportadores de alimentos do mundo, o desafio, no entanto, é continuar o aumento da produtividade agrícola sem aumentar o uso de água na mesma proporção.
"As pessoas falam muito de tirar o máximo proveito da produção do solo e já temos uma produtividade do solo muito boa", disse José Roberto Borghetti, consultor do Brasil para a FAO. "O que temos que falar agora é da produtividade hídrica. E isso é usar o mínimo de água com o máximo de produção".
O Brasil produz 140 milhões de toneladas de grãos em 70 milhões de hectares, dos quais apenas 3% é irrigada, ou seja água usada vem diretamente dos cursos de água transpostas para a lavoura. No entanto, o potencial de área irrigada é de 30 milhões de hectares novos.
Mas antes de expandir será preciso melhorar a irrigação.
"Se 70% da água é destinada à agricultura e pecuária e se 50% é perdida, então temos que pensar na eficiência antes de aplicar qualquer tipo de genética," ponderou Borghetti. "Temos que pensar em utilizar melhor o que temos disponível e melhorar com inovação tecnológica todos os procedimentos de irrigação e em função dos cultivos."
Os principais fatores que levam às perdas na irrigação, segundo Borghetti, são vazamentos e conexões mal feitas, além da falta de manejo e a inadequação de programas de irrigação para cada cultivo.
"Muitas vezes não se pensa na cultura sendo irrigada e se joga a água nas plantações mesmo quando as plantas não estão absorvendo água", explicou.
E portanto, muitos países e órgãos multilaterais estão se voltando para pesquisar a 'produtividade hídrica', como explicou Borghetti. A FAO tem um trabalho constante de melhorar a irrigação enquanto o tema deve ressurgir na quinta conferência mundial da água, que acontecerá em março de 2009, em Instambul, na Turquia.
Borghetti acredita que deve ser discutido não apenas o acesso da população à água doce potável e melhoria no saneamaneto básico, mas também o dilema do acesso à água e alimentação tendo em vista o crescimento populacional.
"Acho que não estamos próximos de encontrar uma solução", disse. "Mas eu acredito que tudo tem uma solução, ainda não sei qual é a solução para este tripé mas acho que este será o grande ponto de discussão da humanidade para os próximos anos".
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