Enquete: Precisamos pensar além da educação
Este mês, em que comemora-se o Dia Mundial da Água, a Revista Sustentabilidade, em cobertura temática, levantou os principais problemas e desafios que a humanidade enfrenta ao tentar preservar este recurso indispensável para a vida, ouviu especialistas e perguntou ao próprios leitores qual dever ser o caminho.
O dilema é como usar racionalmente este recurso natural indispensável, ao qual quase 20% dos 6 bilhões de seres humanos não têm acesso, porcentagem que corre o perigo de aumentar vertiginosamente por causa das desiqualdades econômicas, mudanças climáticas e uso irresponsável deste recurso.
Existem vários caminhos para buscarmos uma mudança neste cenário. Enquete feita pela Revista Sustentabilidade durante um mês mostrou que uma campanha educacional ampla é considerada a ação mais importante por 65% dos 202 leitores que votaram.
Mas 15% elegeram como medida mais eficaz incentivos à implementação de novas tecnologias, enquanto punições e aumento de preço receberam 7% e 4%, respectivamente.
Apenas 7% disseram que todas têm igual importância.
Leonardo Morelli, coordenador da ONG Grito das Águas, apesar de apoiar e trabalhar com campanhas educacionais, lembrou que uma gama variada de medidas precisam ser implementadas em todos os setores, pois as campanhas educaionais passam a responsabilidade para aquele que às vezes pouco pode fazer: o indivíduo.
"É preciso fazer um esforço para reduzir o consumo em outros setores", explicou.
O raciocínio de Morelli baseia-se em estatísticas que mostram que dos setores agrícola, industrial e residencial, este último é que consome e desperdiça menos.
Segundo Morelli, as residências são responsáveis por 10% de todo o consumo de água e têm perdas de 14%. As indústrias, consomem 20% e desperdiçam 26%, enquanto o setor agrícola é responsável por 70% do consumo de água, chegando a perder 50% do volume de água destinado a agricultura irrigada.
O engenheiro Fabiano Moreno Peres concordou com o resultado da enquete. Ele aposta na educação e conscientização, pois o indivíduo conscientizado pode levar novas práticas a outras áreas.
A pesquisadora e engenheira Regiane Pessarello, da USP, que concluiu recentemente pesquisa sobre o uso de água em canteiros de obras, reconhece a necessidade de campanhas educacionais, mas indicou que a implementação de novas tecnologias são essenciais para se ter um avanço na área.
"Se você ministrar palestras para os operários, isso vai economizar não só no canteiro, mas o operário também vai levar aquilo para casa", disse. "Mas a questão de incentivos para implementação de novas tecnologias de economia e reuso de água, também é importante, pois não adianta dizer para o operário não desperdiçar água se não forem feitas as instalações provisórias do canteiro adequadas, sem vazamentos e desperdícios de água".
O uso de incentivos fiscais para quem aplica novas tecnologias é o caminho para o coordenador de educação do Programa de Uso Racional da Água da Sabesp, Ricardo Chahin. A Sabesp, explicou Chahin, foca na educação em seu programa porque está preocupada em reduzir o consumo nas residências pois é a maior parte de sua carteira de clientes.
Gilmar Altamiro, da ONG Universidade da Água, sugeriu uma visão mais estratégica, pois "as pessoas só reagem a curto prazo com a redução de custo por meio de bônus ou multa. A educação só funciona a médio e longo prazo".
Para finalizar o debate, o diretor da Agência Nacional de Água (ANA), Dalvino Troccoli Franca, com vistas à universalização da distribuição da água, apontou que o aumento de preço generalizado poderia afetar os que não têm culpa.
Segundo ele, o aumento na conta de água prejudicaria a população mais carente, dificultando a equidade do uso da água e portanto acredita que a implementação de novas tecnologias e a campanha educacional seriam as mais viáveis.
Asssim, analisando os fatos e ouvindo especialistas pode-se concluir que educar o indivíduo não basta. É preciso fazer uma avaliação estratégica, visando medidas customizadas em cada setor, como um primeiro passo para incentivar o uso racional de água.
O brasileiro ainda não aprendeu a conviver com seus rios