Estudo da USP mostra como reduzir uso de água em canteiros
A gestão do uso da água, reuso de água da chuva e até o uso de torneiras automáticas são algumas medidas que se mostraram eficazes no combate ao desperdício de água no canteiro de obra, mostrou uma pesquisa de engenheira da Escola Politécnica – Universidade de São Paulo (USP).
A pesquisa foi feita pela engenheira civil, Regiane Grigoli Pessarello, que concedeu entrevista à Revista Sustentabilidade explicando como a água pode ser gerenciada no canteiro de obras.
Durante a pesquisa, concluída em fevereiro deste ano, foram estudados três canteiros de obras. Segundo Pessarello, esse é o primeiro estudo que mostra como o uso da água é feito nestes espaçoes, e inclui até dados do consumo por operário, podendo assim ter uma base de quanta água será utilizada durante a construção do empreendimento.
Segundo Pessarello, algumas construtoras já estão investindo em técnicas para reduzir o desperdício de água nos canteiros.
Revista Sustentabilidade – Quais as formas para evitar o desperdício de água nos canteiros de obra?
Regiane Grigoli Pessarello – Primeiro, é necessário ter todo um trabalho de gestão com os operários, porque os pedreiros e serventes podem economizar, não deixando torneira aberta. A economia pode ser tanto do recurso da água em si, como também do custo. Hoje em dia, as construtoras têm optado pela compra de água de caminhões pipas, reduzindo o custo. Mas pensando na sustentabilidade, seria necessário fazer todo um trabalho de gestão da água com os próprios trabalhadores. Além disso, como a água é utilizada tanto na construção como pelos trabalhadores - que tem um consumo grande por causa do vestiário, chuveiros, refeitórios - então são necessários programas de conscientização para fazer o uso racional dessa água, indicando como tomar um banho mais rápido, não deixar a torneira aberta desnecessariamente, e ter no canteiro de obras equipamentos que também contribuam com a economia da água, como as torneiras de acionamento automático, entre outras técnicas.
Revista Sustentabilidade – Quantos litros de água são utilizados em um canteiro de obras hoje?
Pessarello – Durante a minha pesquisa feita em três canteiros de obras de edificações de prédios, eu cheguei a alguns números de consumo por m². Uma obra de padrão médio, por exemplo, de uma torre com 15 pavimentos e acabamento médio, consome em média 0,44m³ de água por m². Quanto maior a obra, mais insumos são consumidos, só que em uma obra grande, o consumo de água acaba de diluindo pelos m². O consumo de uma obra grande que eu avaliei, que tinha nove torres em construção, a média de consumo ficou em 0,37m³ por m².
Portanto, durante as pesquisas, ao invés de apontar o consumo por m², que vária sempre de obra para obra, eu preferi buscar um valor pela quantidade de operários que estão trabalhando na determinada obra. Para isso, é necessário pegar todo o consumo de água no canteiro de obras e dividir pela quantidade de operários que estão nessa obra. Durante a pesquisa eu conseguir achar um indicador de m³ por homem-hora. Esse indicador mostrou aproximadamente que o consumo de água por pessoa é de 0,009m³ por homem hora [Uma família de clásse média consome em média 0,006m³ por pessoa-hora em um mês].
Revista Sustentabilidade – Há possibilidades de se reutilizar a água usada nas obras?
Pessarello – Sim. Pode-se reutilizar a água do vestiário e chuveiros na descarga depois. O uso da água da chuva também pode ser uma forma de reuso, sendo que ela pode ser utilizada em alguns serviços da obra.
Revista Sustentabilidade – Quais tecnologias estão sendo usadas para a gestão da água no canteiro de obras?
Pessarello – Eu percebi nas obras em que realizei minha pesquisa, que estão sendo utilizadas torneiras de acionamento automático e descargas com 6 litros de água, que é uma quantidade menor do que as convencionais. O que eu percebi é que existem algumas construtoras que já estão se preocupando com a questão da gestão da água nos canteiros de obras, tanto que em uma das pesquisadas, a [gerência] de qualidade da obra estipulou metas para o consumo de água. Nessas obras, as contas de água eram analisadas todos os meses, e o consumo também era analisado, e a partir dessas análises, a construtora estipulava as metas para que esse canteiro não consumisse tanta água.
Revista Sustentabilidade – É possível analisar o quanto de água é desperdiçado nos canteiros de obras?
Pessarello – Nas minhas pesquisas eu não cheguei a esses números. Eu sei que se tem bastante desperdício. Por exemplo, quando você vai em uma obra, vê que há vazamentos e as instalações provisórias dos operários não são adequadas. E tem como se reduzir esse desperdício, mas não sei o quanto é desperdiçado.
Revista Sustentabilidade – Na sua opinião, qual seria a melhor alternativa para reduzir e manter o consumo adequado de água nos canteiros de obras?
Pessarello – A gestão, o controle, saber exatamente onde está se utilizando a água. Nas pesquisas que eu fiz, até então, não se sabia o quanto era consumido de água por operário, por metro quadrado, ninguém entendia disso. É necessário saber o quanto é utilizado em média em cada etapa da obra. Então, é preciso fazer a gestão da água durante a obra, envolvendo a construtora, os operários, e implantar tecnologias nos canteiros e, a partir daí, tentar fazer pesquisas.
Por exemplo, no estado de São Paulo chove bastante. Será que não é possível a implantação de uma cisterna para a captação e armazenamento da água da chuva? Essa água poderá ser usada posteriormente, por exemplo na cura de uma laje. Quando se bate uma laje, é necessário colocar uma lamina de água de 1 cm para o concreto curar. É muita água. Nos processos de impermeabilização também usa-se água para testar, colocando água na laje e deixar 24 horas para verificar se há infiltrações no empreendimento. Após isso, essa água é descartada, e é muita água. Então, a água da chuva poderia ser usada para fazer esses testes, e o que as construtoras fazem hoje é utilizar a água da torneira mesmo. Por que não utilizar a água da chuva?
Revista Sustentabilidade - No Brasil existem pesquisas de gestão e uso de água? É grande essa área de pesquisa?
Pessarello – Para o uso da água após a construção, existem várias pesquisas. Já para a obra em construção, a única pesquisa que eu tenho conhecimento é essa que eu fiz. Eu pesquisei toda a bibliografia, até a internacional e não encontrei nada nessa área.
Revista Sustentabilidade – Existem incentivos do governo para as construtoras desenvolverem estas tecnologias?
Pessarello – Do governo não existe, os [incentivos] que existem são muito poucos ainda, o que se tem hoje é muito "blá-blá-blá".
Revista Sustentabilidade – Na sua opinião, se for aplicada uma lei para obrigar as construtoras a reduzirem seu consumo de água, será bem aceita na cadeia construtiva?
Pessarello – Eu acho que o governo poderia ter legislações que incentivasse isso. Por exemplo, poderiam existir campanhas pela qual, ao iniciar a obras, a construtora pudesse informar à Sabesp o quanto ela utilizará de água durante a construção, para se ter um controle. E também, as construtoras que já têm programas e se preocupam em fazer um consumo consciente de água poderiam pagar menos taxas. Outro programa legal seria dar descontos na conta de água para a construtora que tem projetos e prova que reduziu o consumo por meio de tecnologias ou de treinamentos.
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