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Dia da água todos os dias

por Alexandre Spatuzzaúltima modificação 24-03-2008 21:52:00

Será que já chegamos ao ponto de, num ato desesperado para educar sobre o problema da falta de água que afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, defecarmos em público para mostrar a falta de dignidade que sofrem os que não têm saneamento básico?

Pois bem, defecar em um passeio público foi exatamente o que fez (fingiu?) recentemente uma ativista da ONG britânica WaterAid. Segundo relato da própria ativista, ela sentiu-se 'vulnerável' e 'exposta'. Mas seu protesto foi contra todo um sistema anacrônico e ineficiente de gerenciamento do único recurso natural que é concorrido por todos os setores sociais e econômicos da sociedade.

A água é tão importante que em uma conversa de boteco conclui-se facilmente que pode faltar eletricidade ou até telefonia ou Internet por vários dias, mas quando falta água, percebemos imediatamente. No entanto, é isso que 1,1 bilhão de pessoas enfrentam todos os dias, enquanto 40% da população mundial de 6,6 bilhões não têm saneamento básico e são forçados a defecar em lugares públicos.

Mas a triste realidade demonstra que a sociedade ocidental, dita civilizada, ainda não sabe gerenciar este recurso que compõe 70% do corpo de um ser humano.

Na agricultura, nas indústrias e nas residências registram-se perdas de 50%, 26% e 14%, respectivamente. Existem redes de distribuição de água em centros urbanos ou estados brasileiros que têm índices de perdas de 40% a 50% - de água tratada.

Nas cidades, a legislação força o uso de água potável para descargas dos banheiros.

Quando olhamos a produção de alimentos, os fatos indicam algo até mais grave. Para cada litro de Coca-Cola usa-se 2,1 litros de água. Para produzir alimentos para uma pessoa por um dia (três refeições), usa-se de 2 mil a 5 mil litros para cada dia, enquanto para criar uma cabeça de gado até o abate e corte são necessários 15 mil litros de água. Tudo levando em conta as enormes perdas.

Enquanto isso, mudanças no clima indicam maior escassez de água nas regiões mais pobres, onde se consome uma fração dos 5 litros diários necessários para uma vida saudável.

A Comissão Mundial de Água estima que até 2025, a metade da população mundial sofrerá os efeitos da restrição da água potável.

Os dados e fatos da água estão ao alcance de todos os cidadãos, mas nossos rios continuam poluídos, nosso sistema produtivo e industrial ainda não mudou e a agropecuária irrigada ainda perde 50% da água destinada as lavouras.

Olhando tudo isto, talvez sejamos mesmo compelidos ir para a rua, abaixar as calças, agachar e...

Mas avanços, ainda lentos, como toda mudança cultural ou econômica, começam a acontecer na indústria e nas residências, responsáveis por 20% e 10%, respectivamente, do consumo de água na sociedade moderna.

Na comemoração do Dia Mundial da Água deste ano, a Revista Sustentabilidade, veículo de Internet, pequeno e independente, recebeu mais de uma dezena de sugestões de pauta falando sobre redução e reuso nas industrias e nas empresas. Indicação da mudança.

Os grandes veículos devem ter recebido bem mais avisos de pauta.

Publicamos alguns exemplos que revelam não só como a água é importante, mas os meios que podem reduzir efetivamente o consumo, deixando mais água para todos.

Existem vários caminhos para termos um consumo mais racional.  A enquete feita este mês pela Revista Sustentabilidade mostrou que uma campanha educacional ampla é considerada a ação mais importante por 65% dos 202 leitores que votaram na enquete.

Mas 15% elegeram como medida mais eficaz incentivos a implementação de novas tecnologias, enquanto punições e aumento de preço receberam 7% e 4% respectivamente.

Apenas 7% disseram que todas têm igual importância.

É claro que campanhas de esclarecimento e conscientização são importantes para gerenciar o nosso recurso mais precioso, principalmente pelo potencial multiplicador que cada indivíduo tem.

A WaterAid britânica tem, de fato, sugestões menos agressivas que defecar na rua, como a de formar uma rede de restaurantes em Londres que já estão cobrando um extra para cada copo de água servido (lá eles tomam água da torneira) para financiar um fundo que custearia a distribuição de água e saneamento básico em regiões pobres.

Mas voltando aos números, se eliminarmos os 14% de perdas nas residências teríamos um efeito global menor do que o de acabar com as perdas de 26% da indústria e as de 50% na agricultura, pois não é um desperdício de espaço lembrar que enquanto as residências consomem 10% de toda a água, as indústrias consomem 20% e o agronegócio, 70%.

Portanto, mesmo com estas iniciativas, os números mostram que o país, o maior detentor de água potável no mundo, ainda precisa melhorar individual e coletivamente o uso da água. Seja reduzindo o uso de mangueiras para lavar os quintais de nossas casa ou dentro das indústrias, implementando novas tecnologias para o uso racional da água, pois a conservação deste recurso depende do esforço de todos, todos os dias.

 

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