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Em defesa dos sacos plásticos

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A controvérsia em relação ao uso de sacos plásticos como meio de transporte das compras efetuadas em estabelecimentos do comércio não parece ter sido devidamente avaliada em todos os seus aspectos.

A recente iniciativa de proibição de seu uso, bem como o incentivo ao uso de sacolas retornáveis parecem ter negligenciado um fato importante: o de que 100 % das sacolas que trazem produtos para o lar são utilizadas pelo cidadão para retirar e dar um destino aos resíduos produzidos em seu ambiente doméstico. Tais sacolas prestam-se ainda muito bem para fazer a separação seletiva do lixo, dada a conveniência e facilidade de seu uso (o leitor pode acessar a íntegra de uma pesquisa a esse respeito, realizada pelo Ibope Inteligência, no site www.plastivida.org.br).

A proibição do uso de sacos plásticos para o transporte de compras representará um problema para o cidadão quando este for remover os resíduos produzidos em sua residência, na medida em que não lhe será tão fácil encontrar substitutos com as mesmas características de praticidade da sacola plástica. Tal proibição dificultaria sobremaneira, se
não tornaria impraticável, a feitura da separação seletiva de lixo no ambiente doméstico.


Plástico, bem como metal, vidro e papel não poluem por si o meio ambiente. Quem o polui é o homem, que lá deposita esses materiais.
O problema não reside no material empregado para confeccionar a sacola. O problema está no fato de que não há um sistema eficaz que estimule a feitura da preparação, da separação, da coleta e da reutilização dos materiais existentes nos resíduos produzidos nos
ambientes domésticos, de maneira a se evitar a sua deposição no meio ambiente.

O homem inventou o plástico, o papel, o vidro e aprendeu a lidar com o metal. Inventou ainda o avião, o telefone celular, o computador. Está na hora de ele inventar um sistema eficaz e eficiente de separação, coleta, reutilização e reciclagem de resíduos domésticos. Capacidade certamente não lhe falta.


Apresento aqui então uma proposta para um sistema como esse, onde a sacola plástica tem um papel fundamental, dadas as suas características de compressibilidade, leveza, portabilidade, maleabilidade, flexibilidade, indeformabilidade e impermeabilidade. Nesse sistema, a sacola plástica é administrada como um container flexível, destinado a transportar mercadorias em uma etapa e resíduos em outra, passando por uma higienização antes de ser recolocada no ciclo produtivo, junto ao comércio, onde ela volta a ter o seu uso original. Nesse sistema ainda, a sacola plástica passa a ser comprada pelo cidadão, que recebe um crédito de volta, tanto pela sacola quanto pelos resíduos, no momento em que faz a entrega a um ponto de coleta.


Tal proposta faz parte do projeto "Dispositivos para a Preparação e Seleção de Resíduos para Fins de Coleta Seletiva", elaborado por este autor e apresentado à Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo para obtenção de recursos do programa PIPE 1- Programa de Inovação na Pequena Empresa. Para tanto, devido ao seu porte, o projeto foi dividido em três etapas. A etapa 1 foi apresentada à Fundação em 31 de março de 2005. A etapa 2 foi-lhe apresentada em 30 de novembro de 2005 e a etapa 3, por sua vez, foi-lhe apresentada em 30 de julho de 2006.


A etapa 1, cujo foco é o ambiente doméstico, tem por objetivo facilitar a preparação e a separação seletiva dos resíduos. Isso se dá através da criação de metodologias e dispositivos adequados para tal. Uma das operações a ser incentivada é a densificação. Entenda-se por
densificação a redução de volume das embalagens. Isso acontece por meio de ações simples tais como amassamento, picotamento, dobramento, prensagem e recorte.


A título de ilustração, convido o leitor a fazer o seguinte teste com uma garrafa PET: apanhe uma faca de serra, daquelas de cortar pão, e uma tesoura doméstica robusta. Com a faca corte o fundo da garrafa, como se a estivesse "fatiando", e destaque-o. O fundo, já cortado, deverá ter o aspecto de um pires. Faça o mesmo com o gargalo, bem próximo à
rosca. Você deverá ter obtido um forma cilíndrica vazada, um "pires" e uma rosca. A seguir, pegue a tesoura e faça 4 cortes longitudinais nessa forma cilíndrica, de maneira a obter 4 tiras do material. A seguir, faça a lavagem (esse é o momento ideal para fazer isso. Repare como fica fácil alcançar todas as faces das partes obtidas). Seque-as. Corte agora
transversalmente cada tira em no mínimo 3 pedaços. Faça esta última operação sobre um prato de sobremesa. Pronto! Está feita a densificação. Quanto maior o número de cortes, maior a densificação.

Utilize o prato como uma pequena pá e coloque as tiras e a rosca de
PET dentro de uma sacola plástica. Mantenha o "pires" em local separado. Repita a operação para outras garrafas, tomando o cuidado de empilhar os "pires", encaixando-os um sobre o outro. Após ter acumulado cerca de 20, prenda os pires com fita adesiva, elástico ou similar e coloque-os na sacola. Repita a operação e veja quantas garrafas PET você consegue colocar em uma sacola plástica comum. No melhor teste que pude observar conseguiu-se dispor 37 garrafas de 1,5 litros em uma única sacola.


A metodologia acima é bastante abrangente e pode ser aplicada a materiais que não o vidro ou o metal. Tome o leitor, por exemplo, uma daquelas embalagens de amaciante de roupas ou similar, de 2 litros ou mais, e repita o procedimento. Tenha o cuidado de fazer os cortes
longitudinais nas curvaturas, a fim de obter tiras o mais planas possível. Veja a que se reduziu o volume inicial da embalagem.


Quanto tempo você gastou em cada operação de adensamento ? Não mais que três minutos, certamente. Com a prática , este tempo  reduzir-se-á ainda mais. Esta é uma metodologia simples de densificação, ao alcance de todos. É a desenvolver tais metodologias e dispositivos que as facilitem que a etapa 1 do projeto se propõe. A
densificação visa impactar positivamente a logística da coleta seletiva, que costuma ser o gargalo do processo.


A etapa 2 do projeto tem como foco o ponto comercial. As sacolas plásticas lá estarão dispostas, já sinalizadas segundo o resíduo que deverão conter no futuro. As mercadorias, por sua vez, serão empacotadas segundo o tipo de resíduo dominante (em maior quantidade) que irão gerar. Cada consumidor levará pelo menos uma unidade de cada sacola, a fim de ter em sua residência sacolas sinalizadas para todos os tipos de resíduos.

O projeto prevê a atuação intensa das cooperativas de catadores junto aos check outs dos pontos de venda, instruindo o cidadão a densificar, separar seletivamente e a colocar os materiais recicláveis nas sacolas apropriadas. A atuação diretamente nos pontos de venda é mais produtiva do que a atuação porta a porta.

A etapa 3 do projeto tem como foco o PEV - Ponto de Entrega Voluntária. Prevê-se a criação de redes de PEVs de pequeno porte, operadas por cooperativas. É exatamente por operarem os PEVs, a "ponta final” do processo, que as cooperativas serão a organização
mais indicada para proceder à atividade educacional na "ponta inicial" do processo, os pontos de venda. Pois assim elas podem verificar os resultados do processo educacional que efetuam.


As cooperativas atuarão em território fechado. A cada uma delas caberá a operação de uma rede de PEVs. Assim, para aumentar a sua receita, a cooperativa poderá implementar a sua iniciativa em sua região de atuação, incentivando o cidadão a fazer a separação seletiva de
PETs por cor, de metais por tipo (aço, alumínio, etc..), de plásticos por tipo e cor , de papel por tipo e cor, de embalagens Tetrapack, etc.., a fim de ganhar eficiência. Para tanto, pode-se estabelecer uma sub-sinalização para as sacolas plásticas. A cooperativa poderá ainda
incentivar o cidadão a separar seletivamente outros materiais, tais como tecidos, pilhas e baterias, cartuchos de impressoras de computador, etc...


O projeto foi submetido à avaliação da assessoria ad hoc da Fapesp. Não é objetivo deste artigo comentar os pareceres e opiniões desses assessores, mas transcrevo aqui um deles, referente à etapa 1 do projeto. À pergunta "a inovação decorrente do projeto terá
importante impacto comercial ou social?" feita pela Fapesp em seu formulário PIPE 1, o assessor respondeu."Social, certamente não. O dispositivo proposto não estimula a segregação na fonte, que, na realidade, necessita de dois tipos: seco/ limpo e úmido /
orgânico".


O assessor parece não ter levado em conta que 78% dos cidadãos brasileiros estão dispostos a "separar o lixo de sua casa deixando papéis, vidros, plásticos, latas e restos de alimento separados para serem reaproveitados", conforme demonstram os gráficos dos slides 50 e 51 da pesquisa "O que o brasileiro pensa da biodiversidade", realizada pelo Instituto Vox Populi em março de 2006, por solicitação do Ministério do Meio Ambiente e pelo Instituto de Estudos da Religião (a pesquisa está disponível no site do Ministério do Meio Ambiente, www.mma.gov.br. Ao entrar, clique sobre qualquer notícia da coluna "Últimas Notícias". Ao final da página, aparecerá uma relação de datas. Clique em maio de 2006. A seguir procure a notícia Pesquisa mostra crescimento da consciência ambiental no Brasil em 22 da maio).


É exatamente a isso que este projeto se destina: fornecer a esses já auto estimulados 78 % da população brasileira metodologias e meios de se fazer a separação seletiva e a densificação. O assessor considera, ainda, que é desnecessário separar seletivamente os resíduos em
papel, plástico, vidro, metal.

Cabem aqui dois comentários: 1) segundo o assessor, então,
organizações como o Cempre - Compromisso Empresarial para a Reciclagem, O Pintou Limpeza, da rádio Eldorado, os supermercados Pão de Açúcar e Wal Mart e a Coca Cola trabalham desnecessariamente, já que incentivam a população a efetuar a separação seletiva de resíduos. 2) a separação seletiva é feita hoje no espaço físico das cooperativas. Para tanto, elas têm que ser dotadas de linhas triagem, muitas vezes compostas por esteiras rolantes, que são equipamentos de alto valor e ocupam espaço considerável. A prática, pelo cidadão, da densificação e da separação seletiva conforme proposto pelo projeto tem como
objetivos: a) favorecer a logística do processo, possibilitando aos coletadores transportar mais material por viagem realizada. b) eliminar as linhas de triagem, fazendo com que o espaço físico para se constituir uma cooperativa seja muito inferior ao necessário hoje, com o atual processo. Isso facilitará a instalação de inúmeras cooperativas em centros urbanos como São Paulo.


A Fapesp seguiu as recomendações de sua assessoria ad hoc e em 4 de janeiro de 2007 denegou (negou recursos) à etapa 1 do projeto. A etapa 2 foi denegada em 1o de outubro de 2007 e etapa 3 foi denegada em 14 de junho de 2007. O projeto encontra-se, desta forma, paralisado.

por Caio Cesar Saraiva, consultor e professor da Anhanguera Educacional Uniberoúltima modificação 21-07-2008 11:09:00

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