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A Educação Ambiental e sustentabilidade

por Walber Gonçalves de Souza*última modificação 23-06-2008 11:22:00

            Para pensar em sustentabilidade, devemos primeiro pensar em uma Educação Ambiental voltada para a sustentabilidade.

Fazendo uma analogia aos escritos de Leonardo Boff (1998) em seu livro: “A águia e a galinha, uma metáfora da condição humana”, comparo a educação ambiental àquilo que ele retrata como sendo sistemas fechados e abertos.

Para Boff, existe uma estrutura básica que preside a todos os fenômenos, especialmente os vitais (aí não tem como deixar as questões ambientais de fora), que são: seu caráter fechado e, ao mesmo tempo, aberto.

“Na verdade tudo vem inserido dentro de sistemas de energias e de relações. Sistema significa um conjunto articulado de inter-retro-relacionamentos entre partes constituindo um todo orgânico. Ele é mais do que as próprias partes, um sistema dinâmico sempre buscando seu equilíbrio e se auto-regulando permanentemente. Todo sistema apresenta essas duas facetas: por um lado, é fechado e, por outro, aberto”.

“É fechado porque constitui uma realidade consistente, com sua relativa autonomia, dotado de uma lógica interna pela qual se auto-organiza e se auto-regula. É aberto porque se dimensiona para fora. Constituindo uma teia de interdependência com outros seres e com o meio circundante. Dando e recebendo. Trocando informações no seio de uma imensa solidariedade ecológica, terrenal e cósmica. Tudo está ligado à tudo”.

É possível percebermos na educação ambiental estas duas realidades, expostas por Boff. Ao mesmo tempo em que, a Educação Ambiental tem sua relativa autonomia e sua lógica de ser, ela dimensiona para fora. E só existe se houver a interdependência de tudo e de todos.

 

Histórico da Educação Ambiental

 

O processo histórico da EA é muito vasto, na verdade, sabe-se lá quando tudo começou. Deveríamos mergulhar na vasta história da humanidade, entretanto, buscaremos ver o histórico da EA dentro de uma lógica escolar e de enfoque contemporâneo.

Para Silva (2004), a Educação Ambiental não é coisa nova no Brasil. Nos anos 60, Paulo Freire já colocava em prática um método educacional que partia da interação entre o aluno e seu meio, sua comunidade. De lá para cá, com o modelo de desenvolvimento adotado, nossa relação com a natureza piorou muito, embora a temática da Educação Ambiental tenha ganhado força no período. Mesmo assim, hoje vivemos um momento grave, que exige mudança em termos globais. Mudança que pode ser efetivada com a colaboração da educação, particularmente a ambiental.

Na esfera global, Fritzsons & Mantovani (2004), diz que “a degradação dos recursos naturais é bastante antiga, porém o marco da preocupação da natureza se iniciou oficialmente com os denominados “Clubes de Roma”. O primeiro data de 1968, quando um grupo de 30 indivíduos de vários países e de diferentes formações, dentre eles: pedagogos, economistas, biólogos, e outros se reuniram para discutir um assunto de enorme abrangência: a crise da humanidade. O primeiro relatório produzido foi denominado “The limits to growth”. Neste relatório consta o que poderia acontecer se os hábitos atuais não fossem mudados e se denunciou a obsessão da sociedade com o crescimento. A este relatório, seguiram-se outros e graças os esforços do Clube de Roma, a consciência internacional sobre o problema quanto ao meio ambiente se expandiu rapidamente”.

Mas a Educação Ambiental só veio a ser discutida em Estocolmo, em uma conferência realizada pela ONU, meses depois do relatório publicado pelo Clube de Roma.

Segundo Genebaldo (1999), a conferência de Estocolmo pode ser considerada um marco histórico e político internacional para o surgimento de políticas de gerenciamento ambiental. Foi lá que se reconheceu o desenvolvimento da Educação Ambiental como o elemento crítico para o combate à crise ambiental no mundo.

Ainda segundo o Genebaldo, realizou-se me 1975, promovido pela UNESCO, o Encontro de Belgrado, que teve como tema principal a premente necessidade de uma nova ética global que proporcionasse a erradicação da pobreza, da fome, do analfabetismo, da poluição e da dominação e exploração humana.

É dentro deste contexto que devem ser lançadas as fundações para um programa mundial de Educação Ambiental que possa tornar possível o desenvolvimento de novos conhecimentos e habilidades, valores e atitudes, visando a melhoria da qualidade ambiental e, efetivamente, a elevação da qualidade de vida para as gerações presentes e futuras.

“Apesar da literatura registrar que já se ouvia falar em educação ambiental desde meados da década de 60, o reconhecimento internacional desse fazer educativo como uma estratégia para se construir sociedades sustentáveis remonta a 1975, quando se instituiu o Programa Internacional de Educação Ambiental, sob os auspícios da UNESCO e do PNUMA. E sobretudo dois anos depois, em 1977, quando realizou-se a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, conhecida como Conferência de Tbilisi, momento que se consolidou o PIEA (Programa Internacional de EA) e se estabeleceram as finalidades, os objetivos, os princípios orientadores e as estratégias para a promoção da educação ambiental” (ProNEA, 2003).

Dez anos depois da Conferência de Tbilisi, portanto em 1987, trezentos especialistas de cem países, mais alguns observadores, se reuniram em Moscou, para o Congresso Internacional de Educação e Formação Ambientais, novamente promovido pela UNESCO (Genebaldo, 1999).

O congresso teve como objetivo central discutir as dificuldades encontradas e os progressos alcançados em relação à educação ambiental, em virtude das propostas feitas na Conferência de Tbilisi.

Na América Latina, dando seqüência às conferências Intergovernamentais, ocorreram vários encontros sub-regionais, nos seguintes países: Costa Rica, Peru, Venezuela e Argentina.

Voltando novamente à realidade brasileira, em 1991, promovido pelo MEC e pela SEMAM (Secretaria do Ambiente da Presidência da República), ainda não existia o MMA (Ministério do Meio Ambiente), aconteceu o Encontro Nacional de Políticas e Metodologias para a Educação Ambiental.

Depois disto, promovidos pelo MEC, pipocam nas várias regiões brasileiros, encontros de centros de EA regionais. Culminando em dezembro de 1992, em Foz do Iguaçu, Paraná, o I Encontro Nacional dos Centros de Educação Ambiental. Onde foram discutidas as propostas pedagógicas e metodologias para capacitação e atividades a serem desenvolvidas pelos centros.

Neste mesmo ano, acontece a ECO-92, no Rio de Janeiro, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Que veio reforçar as já existentes recomendações da Conferência de Tbilisi sobre a Educação Ambiental, firmando ainda mais os seguintes aspectos:

  • Ficou patente a necessidade do enfoque interdisciplinar na EA;

  • Reorientar a educação para o desenvolvimento sustentável;

  • Aumentar os esforços para proporcionar informações sobre o meio ambiente, que possam promover a conscientização popular;

  • Promover treinamento de educadores ambientais;

  • Mas, a Agenda 21, onde a educação ambiental; está presente em quase todos os 39 capítulos do documento. (A Agenda 21 é um documento que prevê ações, em todas as esferas governamentais ou não, em prol do meio ambiente, dentro de uma visão sistêmica).

No Brasil, portanto, segundo Fritzsons & Mantovani (2004), citando Guimarães (1995), “foi se configurando a necessidade de implementar a questão ambiental para as novas gerações em idade de formação de valores e atitudes, bem como para a população em geral e assim, procurando atender estas novas necessidades, a Constituição Brasileira de 1988, traz no capítulo referente ao meio ambiente, a inclusão da EA em todos os níveis de ensino”.

 

Formas de Percepção quanto à Educação Ambiental

 

Há uma vastidão de olhares, há uma vastidão do jeito de educar. Somos seres inventivos. Entretanto, veremos alguns olhares que se enraizaram no seio da humanidade.

“As práticas agrupadas sob o conceito de educação ambiental têm sido categorizadas de muitas maneiras: educação ambiental popular, crítica, política, comunitária, formal, não-formal, para o desenvolvimento sustentável, conservacionista, socioambiental, ao ar livre, para solução de problemas entre tantas outras” (Carvalho, 2004).

Fernandes et al (2004), citando Faggionato, esclarece que a percepção ambiental pode ser definida como sendo uma tomada de consciência pelo homem, ou seja, o ato de perceber o ambiente que se está inserido, aprendendo a proteger e a cuidar do mesmo.

Segundo as pesquisas feitas por Mauro Guimarães (2000), a palavra ambiental, da expressão Educação Ambiental, apenas adjetiva, qualifica um processo mais amplo que é o processo educacional. Desta forma, a EA é uma das dimensões presentes na educação.

Ainda por Guimarães, “na sociedade há diferentes projetos educacionais que provocam diferentes visões de mundo e que delas decorrem. Algumas mais conservadoras outras mais críticas. Por isso a motivação em investigar sobre diferentes concepções de Educação Ambiental atreladas a diferentes projetos de sociedade”.

“Uma ação educativa que não seja capaz de contribuir significativamente na transformação de uma realidade, através da formação de cidadãos ativos só permitira a conservação da realidade tal qual como está. Se for esta a ação educativa que vem sendo realizada na maior parte das vezes na escola, temos a predominância de uma educação ambiental conservadora que pouco contribui na superação da grave crise ambiental a na construção de um mundo melhor” (Viegas & Guimarães, 2004).

Vindo de encontro com a afirmação de Viegas e Guimarães, Zakrzeski (2004) escreve que a educação ambiental não pode ter um conteúdo próprio, apresentando objetivos em si mesma. Esta postura equipara a EA com o ensino de ecologia e assume que a crise ambiental é gerada por falta de conhecimento ecológico e que, portanto, a EA é um instrumento para a solução da crise ambiental, criando assim um pensamento conservador, perante os outros aspectos ambientais.

Para Zakrzeski, se faz necessário perceber que os problemas ambientais são gerados por uma estrutura socioeconômica determinada e que a EA deve colaborar com mudanças estruturais na sociedade.

E é isto que Mauro Guimarães afirma ao dizer que, é preciso crer em uma perspectiva mais crítica que contempla uma realidade mais complexa, pois a percebe como um conjunto em inter-relações, o resultado da ação educativa se dará na promoção de um movimento que potencialize a transformação simultânea dos indivíduos e da realidade.

Senão com uma EA conservadora tende, refletindo os paradigmas da sociedade moderna, a privilegiar ou promover: o aspecto cognitivo do processo pedagógico, acreditando que transmitindo o conhecimento correto fará com que o indivíduo compreenda a problemática ambiental e que isso vá transformar seu comportamento e a sociedade (Guimarães, 2004).

Tristão (2004), defende a abordagem interdisciplinar da educação ambiental, entretanto ele acredita que, dificilmente esta percepção educacional se efetiva nas ações pedagógicas do espaço escolar, haja visto que, para a sua realização, além de suscitar uma descentralização do poder, a escola tem que ter autonomia, o que é extremamente complicado pois essas unidades estão sempre submetidas às políticas públicas das diversas esferas do poder.

Tristão apóia também a concepção de redes, onde não são demarcadas diferenças entre sujeitos e objetos, teoria e prática, sistemas vivos e não-vivos. Todos os sistemas são considerados, nessa rede de relações, uma linha que se remete a outra continuamente. Qualquer coisa que produza diferença produz sentidos, ressignifica as redes de relações.

Um outro enfoque, apontado por Zakrzeski, citando Orellana (2001), diz que, a EA tem sido caracterizada a partir de uma visão instrumentalista e de uma visão integral, sistêmica e holística. A primeira é centrada principalmente na resolução de problemas, no uso mais racional dos recursos naturais e na proteção dos mesmos, utilizando para isto estratégias de promoção do civismo e de gestão do meio ambiente. Já a segunda visão quer estabelecer a construção de um novo tipo de relação com o ambiente, onde a sociedade, como mediadora, desempenha um papel fundamental. Ao enfatizar o desenvolvimento de capacidades de análise crítica da realidade e de valores (individuais e coletivos) que gerem atitudes responsáveis com o meio ambiente, a EA integral, sistêmica e holística colabora para pensar e construir uma nova realidade, buscando uma melhor qualidade de vida.

Penteado (2001), primeiramente nos chama a atenção para a nossa visão de mundo, porque a consciência ambiental apresenta uma compreensão do meio ambiente e da atuação do homem neste meio que avança em relação ao modo capitalista de compreensão de mundo, apontando para uma forma mais satisfatória de resolver as questões da sobrevivência humana. Em segundo lugar, devemos mudar a maneira de realizar o trabalho escolar, que de informativo passa a ser essencialmente formativo. E para isto acontecer é preciso dar um passo transformador, e esse passo aponta na direção de se orientar os trabalhos escolares por uma lógica ambiental, a fim de inserir as pessoas no processo de participação, possibilitando-a de estar formada e não simplesmente informada sobre os fatos que a cerca.

Sobre esta temática notamos também as concepções de educação ambiental refletidas por Oliveira (2003), são elas: conservacionistas, protecionistas e preservacionistas. Vamos ver de acordo com Oliveira, do que estas concepções tratam.

O conservacionismo é um movimento utilitarista, centrado na administração racional da exploração e uso dos recursos naturais. Buscam pela redução dos resíduos e da eficiência na exploração e consumo dos recursos naturais, assegurar a produção máxima sustentável.

Preservacionismo: Uma das principais característica do preservacionista é o foco no ambiente não humano, buscando salvar na “natureza” os espaços pelo atrativo de beleza e do valor ecológico, a partir de uma abordagem predominantemente do ambiente físico-natural, concentrando a atenção, antes de mais nada, nos problemas de preservação dos recursos naturais e de proteção da vida animal e vegetal.

Os Protecionistas centram suas atenções nos problemas de proteção e defesa da vida animal e da vida selvagem.

Ainda segundo Oliveira, as percepções das questões ambientais, com raízes históricas profundas, começaram a ganhar relevância a partir dos alertas e das lutas de grupos locais que se posicionavam e agiam em prol das soluções de problemas dos impactos da caça, do desmatamento ou da poluição urbana.

Oliveira ao citar Sorrentino (1995), relata que a educação ambiental tem se apresentado com práticas diversas que são classificadas em quatro correntes: a primeira “conservacionista”, vinculada às ciências naturais, volta-se para as conseqüências da degradação ambiental; a segunda chamada “educação ao ar livre” envolve desde antigos naturalistas até adeptos do movimento escoteiro e dos grupos de espeleologia, montanhismo e outras modalidades de lazer e ecoturismo; a terceira corrente envolve os movimentos sociais (especialmente os latinos-americanos), denominada “gestão ambiental” (com a qual a educação no processo de gestão ambiental vai identificar-se) derivada dos movimentos e lutas por liberdades democráticas; e, a quarta corrente chamada de “economia ecológica”, mais presentes nos pensamentos econômicos, tem início com os conceitos de ecodensenvolvimento.

Verifica-se também na bibliografia as percepções antropocêntricas e ecocêntricas. A primeira reafirma a primazia do homem sobre o mundo natural, tomando-se a natureza como recurso de uso e benefício para os homens. O homem, como ser dotado de razão e dos meios para dominar o mundo natural, conhece suas leis através das ciências modernas. A segunda, defende que o mundo natural tem um valor em si mesmo, que precisa ser preservado frente aos avanços do crescimento demográfico e da devastação do mundo moderno (Oliveira, 1998).

Em meio a este quadro, Oliveira ainda aponta o surgimento de uma terceira visão, mais contemporânea, que aponta para a necessidade de um uso mais racional dos recursos naturais, tentando redefinir as relações do homem com o meio ambiente que busque reafirmar a interdependência necessária para uma sobrevivência mais equilibrada. A educação ambiental busca um novo ideário comportamental, tanto no âmbito individual quanto coletivo.

“Em síntese, podemos afirmar que o objetivo primordial da Educação Ambiental é revolucionar os indivíduos em suas subjetividades e práticas nas estruturas sociais-naturais existentes. Ou seja, estabelecer processos educativos que favoreçam a realização do movimento de constante construção do nosso ser na dinâmica da vida como um todo e de modo emancipado. Em termos concretos, isso significa atuar criticamente na superação das relações sociais vigentes, na conformação de uma ética que possa se afirmar como “ecológica” e na objetivação de um patamar societário que seja a expressão de ruptura com os padrões dominadores que caracterizam a contemporaneidade. Assim posto, privilegiar somente um dos aspectos que formam a nossa espécie ou separar o social do ecológico e o todo das partes é reducionismo, o que pouco contribui para uma visão educacional integradora e complexa do mundo (Loureiro, 2004).

 

*Walber Gonçalves de Souza, Mestre em Meio Ambiente e Sustentabilidade, pós-graduado em Ciências do Ambiente e professor titular do Centro Universitário de Caratinga – UNEC.


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