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Editorial

Por uma COP15 justa, generosa e equânime

por Alexandre Spatuzza última modificação Dec 07, 2009 11:45 PM

Enchentes, secas, tempestades, quebra de safras, fome, falta de água nos grandes centros, pandemias, destruição de infraestrutura e extinção de espécies. Estas são algumas das consequências do aquecimento global que já estão acontecendo mundo afora e que vão acelerar caso as nações não consigam garantir que, nas próximas décadas, a temperatura média não aumente mais do que os 3 graus considerados seguros pelos cientistas.

Mas não vai ser isso que vai ser discutido na Dinamarca, na 15ª conferência do clima organizada pela ONU. Lá, diplomatas, lideranças políticas e líderes empresariais vão se reunir por 10 dias para tentar chegar a um acordo para frear o aquecimento global ao longo de 2010.

O que eles realmente estarão discutindo será o de sempre: dinheiro e poder.

Luis Inácio Lula da Silva, Barack Obama, o premiê britânico, Gordon Brown, o presidente Chinês, Hu Jintao, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e outros representantes 192 países querem reorganizar os acordos do clima firmados até agora de forma que a transição para uma economia de baixa densidade de carbono seja a menos custosa para seus países.

Se conseguirem, seria uma revolução e tanto, que transformaria o nosso jeito de viver e pensar o mundo. Mas estamos apenas no começo. E, ao que tudo indica, será bem mais difícil de convencer os líderes políticos e empresariais do que imaginávamos, pois a única certeza do que acontecerá em Copenhague é que os países ricos vão entrar em confronto direto com os países mais pobres sobre quem deveria pagar a conta para tamanha transição.

Tal impasse mostra que se faz urgente a revisão crítica do modo de vida ocidental e de nossos padrões de consumo de recursos naturais e de energia, para que a transição dê certo e aconteça de uma forma justa. Ou seja, poupando os mais frágeis das mudanças climáticas que já estão em curso e compensando os afetados para que o mundo possa pelo menos sonhar em deixar um futuro ainda próspero para as próximas gerações.

No entanto, segurando as cartas do jogo bem próximo ao peito, os negociadores do clima têm um mandato muito restrito, pois as sociedades mais ricas, apesar da crescente consciência de suas populações, não querem abrir mão dos ganhos que tiveram nos últimos 300 anos. Conquistas alcançadas à custa da maioria da população mundial, hoje com quase 7 bilhões de seres humanos.

Mesmo dentro deste jogo, os negociadores sabem bem que são três os pilares para se construir uma ponte segura para futuro de seus filhos, netos e bisnetos: transferência de renda, abertura tecnológica e redução de consumo.

No dia-a-dia dos avantajados habitantes do hemisfério norte, que são quase um terço da população mundial, isso se traduz em mudanças nos padrões de consumo, redução de lucros das empresas e aumento de gastos financeiros pessoais e governamentais.

Botando em termos econômicos, a contabilidade não fecha: se aumentam os gastos e diminuem os lucros, o resultado é a bancarrota.

Mas este não é o pedágio mais caro para esta gente. O mais difícil mesmo são as mudanças de padrões de consumo. Principalmente de energia e água (aí incluindo o ciclo de vida dos produtos que as consomem), com graves implicações culturais e, portanto, políticas para os que controlam o poder e o dinheiro neste início de século 21.

A consciência ecológica pode já ter atingido níveis significativos, mas ainda não se traduziu em mudanças efetivas nos países mais ricos.

Mesmo depois de quase uma década do acordo de Quioto, o americano médio continua consumindo 10 vezes mais energia que o Brasil, os europeus continuam responsáveis por 22% das emissões de gases efeito estufa do mundo e os japoneses pescam irresponsavelmente em todos os mares do mundo.

Enquanto isso, os maldivianos serão obrigados a buscar outras terras para viver depois que sua ilha de baixíssimas altitudes for engolida pelo nível mais alto do mar. Os bolivianos e peruanos não terão mais como consumir seus 400 litros diários de água devido ao derretimento das geleiras andinas. Os africanos terão que escavar cada vez mais fundo na areia do crescente deserto do Saara para irrigar suas pobres plantações monocultoras.

Em Copenhague, onde tudo se fará por consenso, os mais pobres vão cobrar, os mais ricos não vão querer dividir, enquanto os manifestantes nas ruas vão espernear e lutar contra a força de segurança armada com gás de pimenta.

Não se prevê um acordo, pois os que controlam os cofres foram lá apenas buscando adoçar (e dourar) a pílula para seus constituintes e empresas sediadas nos seus territórios.

Apesar de alguns avanços, as grandes corporações - que no mundo globalizado são as geradoras de empregos e impostos das grandes nações - ainda pensam no curto prazo, escoradas na lógica de resultados crescentes trimestrais.

Enquanto isso, apoiados nos mesmos princípios do setor privado, os governos cobram impostos cada vez mais para cobrir as demandas dos grupos lobistas empenhados em manter subsídios agrícolas, previdenciários e empregos em setores ineficientes como os do aço, açúcar e algodão nos EUA e União Européia.

É desta lógica que os negociadores do clima precisam distanciar-se para permitir que a adaptação às mudanças climáticas aconteça de uma forma mais equânime.

E dinheiro há. Mas a distribuição desta riqueza deve ser feita de uma maneira generosa e justa, por meio de fundos internacionais geridos para garantir que os recursos possam chegar aos países mais necessitados, que, em geral, são os que menos podem oferecer garantias e contrapartidas nos sistemas tradicionais de financiamento.

Do mesmo jeito, o grau de abertura tecnológica não pode incorporar a lógica imperialista de controle político e econômico que reina no comércio mundial desde a primeira revolução industrial. É preciso dar aos mais pobres – e mais afetados pelas mudanças climáticas - acesso irrestrito às tecnologias já testadas para que possam ser adaptadas e apropriadas. É fundamental também garantir que as inovações cheguem mais rapidamente ao maior número de pessoas possível.

Por fim, os mais ricos – sejam eles norte-americanos, europeus ou provenientes da classe média ensimesmada brasileira - precisam perceber que a sua qualidade de vida não está atrelada ao nível de consumo e optar por uma redução no usufruto de parafernálias eletrônicas, viagens aéreas de curta distância, troca constante de mobília e outros bens duráveis. Em suma, precisam estancar o desperdício e o consumo insustentável de recursos naturais no dia-a-dia, dessa maneira oferecendo a seus líderes políticos uma margem de manobra mais ampla para firmarem acordos internacionais mais justos e sócio-ambientalmente responsáveis.

Esperamos que nos próximos 10 dias, estas coisas sejam pelo menos discutidas abertamente para podermos, ao longo de 2010, chegarmos a acordos fortes que permitam aos nossos filhos e netos sonhar com alguma prosperidade.

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