Estamos descrentes?
A balança parece que está pendendo para o lado da descrença. Segundo os resultados da enquete postada na capa da Revista Sustentabilidade, a crise vai mais atrapalhar do que ajudar o desenvolvimento limpo e nova economia verde por meio da adoção de tecnologias que minimizam o impacto ao meio ambiente.
Dos 296 leitores da Revista Sustentabilidade que responderam à enquete até o dia 3 maio, 28,38% disseram que crise financeira vai atrapalhar muito e 22,97% disservam que vai atrapalhar um pouco. Ou seja, 51,45% acreditam que as empresas e governos vão patinar no que diz respeito à adoção de produção limpa, redução de emissão de gases efeito estufa e adoção de tecnologias e práticas mais limpas.
Ao mesmo tempo, menos da metade, ou seja 41,55%, acredita a crise vai incentivar os investimentos em tecnologias limpas e produção responsável.
Levando em conta que os resultados são de uma enquete que não investiga as razões do voto e também não tem a pretensão de ter valor estatístico, podemos perceber um certo desânimo. Talvez um realismo no que se refere às decisões de nossos líderes políticos e empresariais.
De fato, a percepção do leitor baseia-se na observação empirica: muito se fala e pouco se faz, como nas reuniões preparatórias do COP15. No entanto, em 2008 foram registrados importantes avanços em alguns setores, mas uma inércia negativa inaceitável em outros.
Relatórios especializados indicam um aumento de investimentos direcionados às tecnologias limpas. Segundo o estudo de duas consultorias diferentes, os fundos de investimentos que direcionaram seus recursos para tecnologias limpas e empresas com compromisso de sustentabilidade socioambiental, principalmente para energia renováveis, aumentaram em 2008.
Dados da consultoria Greentech Media mostraram que fundos de venture capital direcionadas a novas empresas de produção cleantech, atingiram US$7,6 bilhões em 2008, comparado com US$3,5 bilhões no ano aterior.
O relatório publicado pelo portal Greenbiz, mostrou também que avanços foram registrados na reciclagem de papel (a intensidade do uso de papel papel tem caido), na conservação e uso racional de água (a quantidade de água usada nas empresas tem caido), no número de empregos em energias renováveis e tecnlogias novas tem aumentado, o número de empresas que publicam relatórios de emissão de gases efeito estufa cresceu enquanto o número de edifícios 'verdes' também aumentou.
Mas, conforme constatado na nossa enqueta, das 21 áreas pesquisadas, apenas cinco mostraram avanços. O outro lado da moeda é que apenas três áreas (intensidade do uso de carbono na produção, gerenciamento de lixo eletrônico e redução da pegada de carbono dos empregados por meio de trabalho a distância) retrocedera.
Os outros 13 setores patinaram, ou seja, foram registrados alguns avanços, porém não em velocidade adequada para combater os efeitos da mudança climática e a migração para uma sociedade de baixo carbono.
É realmente um resultado 'realista'. Algumas das locomotivas destas tomadas de posição são óbvias:
1. Com acesso a crédito mais difícil e queda nas vendas, os líderes empresariais se voltam a fórmulas gerenciais conhecidas e conservadoras
2. As lideranças políticas voltam seus estímulos financeiros a indústrias tradicionais que empregam mais, como o setor automobilístico, e evitam regulamentações que possam aumentar os custos de produção
3. A diplomacia entre os países volta a se basear no protecionismo para evitar supostos males da abertura econômica e cooperação às suas economias
4. O setor financeiro e as multinacionais retraem seus recursos dos campos promissores e mais progessivos para recompor receitas e cobrir perdas nos seus centros administrativos
5. Com o clima de crise e quedas reais de renda da população, os consumidores deixam de considerar outros fatores além do preço dos produtos, reduzindo a pressão por novos produtos que possam incorporar inovações mais amigáveis ao meio ambiente
Assim, a campo dos céticos às mudanças climáticas ganham força, atravancando o surgimento de processos inovadores e mudanças de posições históricas. Em um artigo importante, publicado no diário The Guardian (01/05/2009), o presidente da Checoslováquia, Václav Klaus, faz duras críticas às políticas de cap-and-trade e a regulamentações mais restringentes para o controle das emissões.
Seu argumento principal é que tais posturas, em tempos de crise, reduziriam o crescimento econômico e alongariam a saída da crise. Enquanto isso, o governo britânico está bem atrás nos seus investimentos para atingir as metas de redução de emissões e o governo americano, apesar de algumas sinalizações importantes, indicou que tem dificuldades em preparar o terreno que se chegue a um acordo contudente na COP15 em Copenhague.
Realmente é uma escolha difícil para quem vê o mundo apenas através de um prisma ortodoxo. A saída da crise está, na verdade, em investimentos anticíclicos direcionados a estimular uma organização econômica nacional e mundial voltada para preservação do recursos naturais, a produção mais limpa, a redução do consumo e a cooperação nas áreas sociais e tecnológicas.
Sistemas de logística reversa, novas indústrias de reciclagem, a implantação de sistemas de preservação e reuso de água, o fomento a novas tecnologias, a reforma (retrofitting) de edifícios para melhorar o seu desempenho energético e a reforma dos sistemas públicos de transporte, sem contar a continuação dos investimentos em energia renovável, têm o potencial de gerar milhões de empregos 'vedes', alguns deles de baixíssimo custo e outros extremamente qualificados, distribuindo as riquezas de uma forma mais equânime e com respeito ao meio ambiente.

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